
Dirtopia explora o solo de São Luís não como um recurso passivo, mas como um arquivo disputado, moldado pelo cuidado, pela extração, pelo abandono e pela regeneração, situado na paisagem socioecológica do Alentejo, marcada pela migração e pelo trabalho agrícola. Inspirando-se em María Puig de la Bellacasa, Marisol de la Cadena e Donna Haraway, o solo é entendido como uma entidade viva inserida num campo pluriversal de relações, e o composto como uma força ativa de devir. Através da coloração cromatográfica, da gravação ecoacústica e da observação microscópica, a obra desenvolve encontros em vez de traduções.
A degradação do solo e a regeneração através do composto abrem um campo de escuta, um convite a prestar atenção a histórias de transição a partir de uma perspetiva não humana. Quando a atenção se desloca, a terra torna-se matéria ativa que fala através da sua própria transformação, sugerindo outras formas de coexistir e cocriar com vidas mais-do-que-humanas, desde bactérias, fungos, insetos ou minhocas. A escuta profunda do solo é um convite a decompor o Antropoceno.
Perdemos entre 30 000 e 40 000 células mortas da pele a cada minuto, e os átomos e a matéria do nosso corpo viajam do pó para os componentes do solo. Os resíduos dos alimentos reintegram-se na laranjeira alimentada pelo composto e regressam ao nosso corpo num prato. Dirtopia não propõe um regresso à natureza. Insiste que já fazemos parte dela, amplificando a agência do solo e do composto enquanto entidades. A obra situa o corpo em ciclos de decomposição e regeneração, onde a matéria regressa continuamente ao solo. Não estamos separados do solo. Estamos a tornar-nos solo.
Dirtopia explores the soil of São Luís not as a passive resource, but as a contested archive shaped by care, extraction, abandonment, and regeneration, situated within the socio-ecological landscape of Alentejo, marked by migration and agricultural labour. Drawing from María Puig de la Bellacasa, Marisol de la Cadena, and Donna Haraway, soil is understood as a living entity within a pluriversal field of relations, and compost as an active force of becoming. Through chromatographic staining, ecoacoustic recording, and microscopic observation, the work develops encounters rather than translations.
Soil degradation and compost regeneration open a field of listening, an invitation to attend to histories of transition from a non-human perspective. When attention shifts, land becomes active matter that speaks through its own transformation suggesting other ways of coexisting and co-creating with more than human life, from bacteria, fungi, insects, or worms. Deep listening to the soil is an invitation to decompose the Anthropocene.
We shed 30,000 to 40,000 dead skin cells every single minute, and the atoms and matter of our body travel from dust to soil components, the waste of our food reintegrates into the orange tree fed by the compost and comes back to our body in a plate. Dirtopia does not propose a return to nature. It insists we are already part of it by amplifying the agency of soil and compost as entities. The work situates the body within cycles of decomposition and regeneration, where matter continuously re-enters soil. We are not separate from soil. We are becoming it.
Visual Documentation



Unstable soil cartographies: Três têxteis em poliéster tingidos com cromatografia de solo, aprox. 50 × 250 cm cada, acompanhados de amostras de solo e cromatografias em papel.
Dirt Whisperers: Esculturas em argila de secagem ao ar com camada de resina e sistema de colunas vibratórias (transdutores de ressonância de 25 W ligados a um amplificador Bluetooth).
Geophonographic Dirty Drift: Vídeo monocanal com áudio (MP4/MOV), a partir de som pré-gravado do composto e visuais generativos em TouchDesigner; apresentado em projeção.
Dirt Interface v1.0: Sistema vestível vibratório: peça de vestuário escultórica em silicone Dragon Skin com formas impressas em 3D, coluna vibratória e microcontrolador.
Técnicas: Coloração cromatográfica, gravação ecoacústica e observação microscópica.
Unstable soil cartographies: Three polyester textiles dyed with soil chromatography, approx. 50 × 250 cm each, accompanied by soil samples and paper chromatographies.
Dirt Whisperers: Air-dry clay sculptures with a layer of resin and a vibrational speaker system (25 W resonance transducers connected to a Bluetooth amplifier).
Geophonographic Dirty Drift: Single-channel video with audio (MP4/MOV), made from pre-recorded compost audio and TouchDesigner generative visuals; presented as a projection.
Dirt Interface v1.0: Wearable vibrational system: sculptural garment in Dragon Skin silicone with 3D printed shapes, vibrational speaker and microcontroller.
Techniques: Chromatographic staining, ecoacoustic recording, and microscopic observation.
Histórico de Exposições Exhibition Histor
Living Mediums, Cultivamos Cultura, São Luís, de 1 a 30 de agosto de 2026 Living Mediums, Cultivamos Cultura Gallery, São Luís, from August 1st to 30th 2026
Laura Elidedt
Rodriguez
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Artista multidisciplinar mexicana, radicada nos Países Baixos, que trabalha na intersecção entre arte, ciência e educação. A sua prática explora questões de identidade, hibridez e coexistência com outros sistemas vivos, centrando-se na forma como o conhecimento é produzido através de relações ecológicas, tecnológicas e sensoriais. Recorre à biotecnologia, a práticas rituais e a metodologias de arte e ciência, dando frequentemente destaque a corpos especulativos, ecologias queer e entendimentos não lineares da vida e da morte.
É docente de Biossemiótica no programa de mestrado Ecology Futures da Avans Hogeschool e apresentou exposições, desenvolveu curadorias e facilitou projetos internacionais no México, Cazaquistão, Rússia e em vários países da Europa. O seu trabalho curatorial inclui um programa de jardim remoto integrado na Ars Electronica (2020). Recebeu o Prémio Kuryokhin de Arte Contemporânea na categoria Arte & Ciência (2021). Foi artista residente na V2_Lab for the Unstable Media, na Bioart Society, na Universidade de Ghent, na Universidade de Wageningen e na Delft Emergence. Participou ainda em programas da Science Gallery e na conferência internacional Taboo – Transgression – Transcendence in Art & Science.
Mexican multidisciplinary artist based in the Netherlands, working at the intersection of art, science, and education. Her practice explores questions of identity, hybridity, and co-existence with other living systems, focusing on how knowledge is produced through ecological, technological, and sensory relations. She engages biotechnology, ritual practices, and art–science methodologies, often foregrounding speculative bodies, queer ecologies, and non-linear understandings of life and death.
She is a lecturer in Biosemiotics in the Ecology Futures MA program at Avans Hogeschool and has exhibited, curated, and facilitated international projects across Mexico, Kazakhstan, Russia, and Europe. Her curatorial work includes a remote garden program part of Ars Electronica (2020). She received the Kuryokhin Contemporary Art Prize in Art & Science (2021). She has been an artist-in-residence at V2_Lab for Unstable Media, Bioart Society, Ghent University, Wageningen University, and Delft Emergence. She has also participated in programs at Science Gallery and the international conference Taboo – Transgression – Transcendence in Art & Science.
