




Na nossa residência artística, estamos a investigar as ecologias vivas da fermentação através do processo de produção de cerveja. Cada cerveja é inoculada por um método diferente: pólen selvagem recolhido debaixo de uma árvore, as leveduras nativas presentes na pele de frutos locais maduros ou mosto filtrado através de folhas de figueira. Cada um destes métodos introduz uma comunidade microbiana distinta que molda a fermentação a partir do seu interior. O projeto propõe que aquilo que é habitualmente descartado ou ignorado — a película que cobre um figo, o pólen transportado pelo vento, a superfície de uma folha — constitui, na realidade, uma parte biologicamente ativa e geradora do processo. A fermentação torna-se, assim, uma forma de estabelecer intimidade com a vida microbiana que faz parte da paisagem local.
A fermentação é uma das mais antigas biotecnologias conhecidas pela humanidade, antecedendo a palavra escrita e moldando a alimentação, a medicina, o ritual e o comércio em todas as culturas do mundo. Muito antes de a microbiologia existir como disciplina, os seres humanos já cultivavam ecossistemas invisíveis, conduzindo organismos selvagens para produzir pão, vinho, vinagre e cerveja através da observação atenta e do conhecimento transmitido entre gerações. A produção de cerveja oferece uma janela particularmente direta para o mundo microbiano. As leveduras que impulsionam a fermentação são as mesmas que estão constantemente presentes à nossa volta. Produzir cerveja é tornar o mundo microbiano, ainda que por breves momentos, legível.
O laboratório do Cultivamos Cultura está equipado com microscópios óticos compostos e lupas binoculares, permitindo observar diretamente as comunidades microbianas que se desenvolvem em cada fermentação. O que daí resulta não é apenas um conjunto de dados, mas uma forma diferente de encontro. Vistas ao microscópio, as leveduras responsáveis pela fermentação deixam de ser entidades abstratas ou invisíveis e tornam-se organismos distintos, observáveis e individualmente presentes. Tendemos a relacionar-nos com os microrganismos de duas formas: ignorando-os completamente ou temendo-os enquanto agentes de contaminação e doença. Observá-los com curiosidade, acompanhar os organismos específicos que chegaram através da pele de um figo ou de uma corrente de pólen e que agora transformam ativamente o mosto, permite desenvolver uma compreensão mais informada, próxima e generosa do mundo microbiano em que estamos constantemente imersos. Inserido no contexto de uma residência artística, o projeto cria as condições para um tipo diferente de envolvimento com esta investigação — um envolvimento corporal, experimental e aberto à surpresa. O formato da residência desacelera o processo, permitindo que a reflexão acompanhe a produção.
Partimos simultaneamente de métodos artísticos e científicos, acolhendo as incertezas que ambos inevitavelmente produzem. Tal como numa experiência científica, cada cerveja corresponde a uma variação controlada cujo resultado permanece desconhecido — uma hipótese lançada à biologia. Tal como uma obra de arte, interessa-se não apenas pelos resultados, mas também por aquilo que o próprio processo revela: sobre o lugar, sobre a perceção e sobre os sistemas invisíveis que silenciosamente determinam aquilo em que algo se transforma. A cervejaria torna-se um laboratório; o laboratório transforma-se num estúdio.
Cosima Herter (n. 1970) não se identifica propriamente como artista. Considera-se antes uma contadora de histórias que cria narrativas intangíveis, capazes de ganhar forma através de produções encenadas.
É escritora, criadora e consultora de argumento e de ciência canadiana, com formação académica em História e Filosofia da Ciência, da Tecnologia e da Medicina. É sobretudo conhecida pelas suas colaborações nas aclamadas e multipremiadas séries Orphan Black (BBC America) e Snowpiercer (TNT/Netflix). Atualmente vive em Toronto, na província de Ontário, Canadá.
Margaret é luso-canadiana que veio viver para Portugal há dois anos. Aprendeu a fazer cerveja artesanal em Vancouver, no Canada, onde a cerveja caseira é um hobby popular e uma alternativa barata à industria da cerveja. Aqui a tradição é que cada um faça a sua própria cerveja em casa e depois organizar-se um tour de “prova-de-cervejas-caseiras”, indo de casa em casa provando cada experiência e sabores diferentes. Desde que chegou a Lisboa sente a necessidade de criar alternativas ao consumo e industria da cerveja, tendo já facilitado uma série de workshops faz-tu-mesmo de produção artesanal e caseira de cerveja.
In our artist residency, we are investigating the living ecologies of fermentation through the process of brewing beer. Each brew is inoculated through a different method: wild pollen collected beneath a tree, the native yeasts carried on the skin of ripe local fruit, wort strained through fig leaves. Each introduces a distinct microbial community that shapes the ferment from within. The project proposes that what is conventionally discarded or overlooked, the bloom on a fig, the drift of pollen, the membrane of a leaf, is in fact an important biologically active and generative part of the process. Fermentation, here, becomes a way of becoming intimate with the microbial life that is part of the local landscape.
Fermentation is one of the oldest biotechnologies known to human civilization, predating the written word and shaping diet, medicine, ritual, and trade across every culture on earth. Long before microbiology had a name, humans were cultivating invisible ecosystems: coaxing wild organisms into bread, wine, vinegar, and beer through careful observation and inherited knowledge. Brewing offers an unusually direct window into microbial life. The yeast that drives fermentation is the same yeast present around us all the time. To brew is to make the microbial world briefly legible.
The lab at Cultivamos Cultura is equipped with both compound and dissection microscopes which makes it possible to observe the microbial communities developing within each brew directly. What this produces is not only data but a different quality of encounter. Seen through a microscope, the yeasts that drive fermentation cease to be abstract or ambient, and become distinct, observable, and individually present. We tend to relate to microbes either by ignoring them entirely or by fearing them as agents of contamination and disease. To observe them instead with curiosity, to watch the specific organisms that have arrived from a fig skin or a drift of pollen and are now actively transforming the wort, is to develop a more grounded and generous understanding of the microbial world we are constantly embedded in. Working within the structure of an artist residency, the project creates the conditions for a different kind of engagement with that inquiry, one that is embodied, experimental, and open to surprise. The residency format slows the process down, allowing for reflection alongside production.
We draw from both artistic and scientific methods, and are comfortable with the uncertainties each produces. Like a scientific experiment, each brew is a controlled variation with an unknown outcome, a hypothesis offered to biology. Like an artwork, it is interested not only in results but in what the process reveals: about place, about perception, and about the invisible systems that quietly determine what something becomes. The brewery becomes a laboratory; the laboratory becomes the studio.
Cosima Herter (b.1970) does not identify as an artist, per se. She is a storyteller who creates intangible tales that can be brought to form through staged productions. Cosima is a Canadian writer, creator, story & science consultant with a scholarly background in the History and Philosophy of Science, Technology, & Medicine. She is most known for her collaborations on the famed, multi awardwinning series Orphan Black (BBCA), and Snowpiercer series (TNT/ Netflix). She currently lives in Toronto, Ontario.
Margaret is a Portuguese-Canadian who moved to Portugal two years ago. She learned to brew craft beer in Vancouver, Canada, where homebrewing is a popular hobby and an affordable alternative to the commercial beer industry. There, it is common for people to brew their own beer at home and organise homebrew tasting tours, visiting one another’s houses to sample each batch and experience a wide variety of flavours and brewing techniques. Since moving to Lisbon, she has been interested in creating alternatives to industrial beer production and consumption. She has facilitated a series of DIY homebrewing workshops, sharing accessible methods for brewing beer on a small, domestic scale.

