


Enredamentos Necrobiológicos: Estados Ambíguos de Devir
Esta investigação examina a forma como a decomposição redistribui matéria, energia e informação através dos solos, das plantas, dos fungos, dos microrganismos e das redes ecológicas. Partindo do necrobioma enquanto processo de transmutação ecológica, o projeto desenvolvido durante a residência coloca uma questão complementar: de que modo estas transformações se tornam visíveis?
Desenvolvido no âmbito da Residência Artística Cultivamos Cultura 2026, o projeto investiga a microscopia não apenas como um instrumento científico, mas como um dispositivo percetivo através do qual as pós-vidas ecológicas emergem para a visibilidade. A partir de amostras ambientais, culturas microbianas cultivadas diretamente sobre lâminas de microscópio e observações microscópicas realizadas ao longo da residência, o projeto explora os territórios visuais em constante mutação produzidos pelas diferentes profundidades de focagem. Sob o microscópio, os organismos surgem e desaparecem à medida que o foco atravessa sucessivas camadas, revelando não objetos estáveis, mas múltiplos estados de devir. Em vez de privilegiar a precisão e a representação fixa, o projeto interessa-se pelo espaço produtivo entre planos focais — o entre-foco — onde visibilidade e invisibilidade, certeza e ambiguidade, observação e imaginação coexistem.
Um elemento central do projeto é o papel da luz. Tanto a microscopia como a perceção a olho nu dependem da luz enquanto condição fundamental da visão. Através da reflexão, transmissão, refração, transparência, opacidade e sombra, a luz molda ativamente aquilo que se torna visível e aquilo que permanece oculto. Neste sentido, o projeto estabelece um diálogo com as investigações percetivas dos artistas do movimento californiano Light and Space, deslocando essas questões para escalas microbianas e ecológicas.
Expandindo lógicas recombinatórias, o projeto explora formas de transformar a observação num processo performativo em que ver se torna um ato de composição. A própria perceção passa a constituir um espaço de morfogénese, onde formas, significados e associações emergem, se dissolvem e se recombinam continuamente.
Situada entre a bioarte, a estética percetiva, o pensamento ecológico e a criação especulativa de imagens, esta investigação propõe que a observação não é apenas um meio de registar a realidade, mas um processo através do qual as relações ecológicas se tornam percetíveis. Ao explorar a decomposição como condição de devir ecológico, o projeto investiga de que forma a luz, o foco e a perceção permitem que estes processos apareçam, desapareçam e voltem a emergir na experiência humana.
Clarissa Ribeiro é uma artista, investigadora e Professora Auxiliar luso-brasileira no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). A sua prática interdisciplinar situa-se na intersecção entre bioarte, artes tecnoéticas, ecologia, microscopia e estética especulativa, explorando a forma como sistemas biológicos, tecnológicos e ambientais se entrelaçam através de processos de transformação, perceção e devir ecológico. É doutorada em Artes pela Universidade de São Paulo, tendo realizado parte da sua investigação no Planetary Collegium da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, e foi bolseira de pós-doutoramento Fulbright no UCLA Art|Sci Center e no laboratório do nanocientista James Gimzewski. Foi membro fundador do corpo docente e diretora do Programa Avançado em Artes Tecnoéticas do Roy Ascott Studio, em Xangai, criado no âmbito da Pete Townshend Endowed Senior Lectureship in Performative Technoetics. Atualmente integra o Conselho Consultivo Internacional do Shanghai Institute of Visual Arts (SIVA), onde detém o título de Professora Honorária. O seu trabalho tem sido apresentado internacionalmente em exposições, conferências e festivais, incluindo o SIGGRAPH Asia, ISEA, IEEE VISAP, programas da Leonardo/ISAST, eventos associados à Ars Electronica, a College Art Association (CAA), a CultureHub, Politics of the Machines (POM) e Consciousness Reframed. Os seus projetos mais recentes investigam microbiomas, necrobiomas, luto ecológico, entrelaçamentos interespécies e a circulação de matéria, energia e informação através dos sistemas vivos. Através de instalações, performances e experiências participativas, explora de que forma a própria observação pode funcionar como um processo de consciência ecológica e transformação.
Na Cultivamos Cultura desenvolverá Necrobiological Entanglements: Ambiguous States of Becoming, um projeto de investigação que explora a microscopia como dispositivo percetivo através do qual as pós-vidas ecológicas emergem para a visibilidade. Orientará ainda o workshop Fluorescent Graveyards: Necrobiological Entanglements e apresentará a palestra Necrobiological Entanglements: Earthly Remains as a Living Medium.
Necrobiological Entanglements: Ambiguous States of Becoming
This investigation examines how decomposition redistributes matter, energy, and information across soils, plants, fungi, microorganisms, and ecological networks. Starting from the necrobiome as a process of ecological transmutation, the residency project asks a complementary question: how do such transformations become visible?
Developed during the Cultivamos Cultura Art Residency 2026, the project investigates microscopy not simply as a scientific instrument but as a perceptual apparatus through which ecological afterlives emerge into visibility. Drawing from environmental samples, microbial cultures cultivated directly on microscope slides, and microscopic observations conducted throughout the residency, the project explores the shifting visual territories produced by changing focal depths. Under the microscope, organisms appear and disappear as focus moves through successive layers, revealing not stable objects but multiple states of becoming. Rather than privileging precision and fixed representation, the project is interested in the productive space between focal planes—the in-between focus—where visibility and invisibility, certainty and ambiguity, observation and imagination coexist.
Central to the project is the role of light. Both microscopy and naked-eye perception depend upon light as the fundamental condition of vision. Through reflection, transmission, refraction, transparency, opacity, and shadow, light actively shapes what becomes visible and what remains hidden. In this sense, the project enters into dialogue with the perceptual investigations of California’s Light and Space artists, while relocating these questions to microbial and ecological scales.
Expanding upon recombinatory logics, the project explores ways of transforming observation into a performative process in which seeing becomes an act of composition. Perception itself becomes a site of morphogenesis, where forms, meanings, and associations continuously emerge, dissolve, and recombine.
Situated between bioart, perceptual aesthetics, ecological thought, and speculative image-making, the investigation proposes that observation is not merely a means of recording reality but a process through which ecological relationships become perceptible. By exploring decomposition as a condition of ecological becoming, the project investigates how light, focus, and perception enable such processes to appear, disappear, and re-emerge within human experience.
Clarissa Ribeiro is a Brazilian-Portuguese artist, researcher, and Assistant Professor in the Department of Fine Arts at the School of Communications and Arts, University of São Paulo (USP). Her interdisciplinary practice operates at the intersections of bioart, technoetic arts, ecology, microscopy, and speculative aesthetics, exploring how biological, technological, and environmental systems become entangled through processes of transformation, perception, and ecological becoming. She holds a Ph.D. in Arts from the University of São Paulo, including a research period at the Planetary Collegium, University of Plymouth, UK, and was a Fulbright Postdoctoral Fellow at the UCLA Art|Sci Center and the laboratory of nanoscientist James Gimzewski. She was a founding faculty member and Program Director of the Roy Ascott Studio Advanced Program in Technoetic Arts in Shanghai, under the Pete Townshend Endowed Senior Lectureship in Performative Technoetics. She currently serves as an International Advisory Board member of SIVA (Shanghai Institute of Visual Arts) and holds the title of Honorary Professor. Her work has been exhibited and presented internationally at venues and events, including SIGGRAPH Asia, ISEA, IEEE VISAP, Leonardo/ISAST programs, Ars Electronica-related events, the College Art Association (CAA), CultureHub, Politics of the Machines (POM), and Consciousness Reframed. Ribeiro’s recent projects investigate microbiomes, necrobiomes, ecological mourning, interspecies entanglements, and the circulation of matter, energy, and information across living systems. Through installations, performances, and participatory experiments, she explores how observation itself may function as a process of ecological awareness and transformation.
At Cultivamos Cultura, she will develop Necrobiological Entanglements: Ambiguous States of Becoming, a research project examining microscopy as a perceptual apparatus through which ecological afterlives emerge into visibility, while leading the workshop Fluorescent Graveyards: Necrobiological Entanglements and presenting the lecture Necrobiological Entanglements: Earthly Remains as a Living Medium.
