Residency by Clarissa Ribeiro —July 1 to August 7

Enredamentos Necrobiológicos: Estados Ambíguos de Devir

Esta investigação examina a forma como a decomposição redistribui matéria, energia e informação através dos solos, das plantas, dos fungos, dos microrganismos e das redes ecológicas. Partindo do necrobioma enquanto processo de transmutação ecológica, o projeto desenvolvido durante a residência coloca uma questão complementar: de que modo estas transformações se tornam visíveis?

Desenvolvido no âmbito da Residência Artística Cultivamos Cultura 2026, o projeto investiga a microscopia não apenas como um instrumento científico, mas como um dispositivo percetivo através do qual as pós-vidas ecológicas emergem para a visibilidade. A partir de amostras ambientais, culturas microbianas cultivadas diretamente sobre lâminas de microscópio e observações microscópicas realizadas ao longo da residência, o projeto explora os territórios visuais em constante mutação produzidos pelas diferentes profundidades de focagem. Sob o microscópio, os organismos surgem e desaparecem à medida que o foco atravessa sucessivas camadas, revelando não objetos estáveis, mas múltiplos estados de devir. Em vez de privilegiar a precisão e a representação fixa, o projeto interessa-se pelo espaço produtivo entre planos focais — o entre-foco — onde visibilidade e invisibilidade, certeza e ambiguidade, observação e imaginação coexistem.

Um elemento central do projeto é o papel da luz. Tanto a microscopia como a perceção a olho nu dependem da luz enquanto condição fundamental da visão. Através da reflexão, transmissão, refração, transparência, opacidade e sombra, a luz molda ativamente aquilo que se torna visível e aquilo que permanece oculto. Neste sentido, o projeto estabelece um diálogo com as investigações percetivas dos artistas do movimento californiano Light and Space, deslocando essas questões para escalas microbianas e ecológicas.

Expandindo lógicas recombinatórias, o projeto explora formas de transformar a observação num processo performativo em que ver se torna um ato de composição. A própria perceção passa a constituir um espaço de morfogénese, onde formas, significados e associações emergem, se dissolvem e se recombinam continuamente.

Situada entre a bioarte, a estética percetiva, o pensamento ecológico e a criação especulativa de imagens, esta investigação propõe que a observação não é apenas um meio de registar a realidade, mas um processo através do qual as relações ecológicas se tornam percetíveis. Ao explorar a decomposição como condição de devir ecológico, o projeto investiga de que forma a luz, o foco e a perceção permitem que estes processos apareçam, desapareçam e voltem a emergir na experiência humana.

Necrobiological Entanglements: Ambiguous States of Becoming

This investigation examines how decomposition redistributes matter, energy, and information across soils, plants, fungi, microorganisms, and ecological networks. Starting from the necrobiome as a process of ecological transmutation, the residency project asks a complementary question: how do such transformations become visible?

Developed during the Cultivamos Cultura Art Residency 2026, the project investigates microscopy not simply as a scientific instrument but as a perceptual apparatus through which ecological afterlives emerge into visibility. Drawing from environmental samples, microbial cultures cultivated directly on microscope slides, and microscopic observations conducted throughout the residency, the project explores the shifting visual territories produced by changing focal depths. Under the microscope, organisms appear and disappear as focus moves through successive layers, revealing not stable objects but multiple states of becoming. Rather than privileging precision and fixed representation, the project is interested in the productive space between focal planes—the in-between focus—where visibility and invisibility, certainty and ambiguity, observation and imagination coexist.

Central to the project is the role of light. Both microscopy and naked-eye perception depend upon light as the fundamental condition of vision. Through reflection, transmission, refraction, transparency, opacity, and shadow, light actively shapes what becomes visible and what remains hidden. In this sense, the project enters into dialogue with the perceptual investigations of California’s Light and Space artists, while relocating these questions to microbial and ecological scales.

Expanding upon recombinatory logics, the project explores ways of transforming observation into a performative process in which seeing becomes an act of composition. Perception itself becomes a site of morphogenesis, where forms, meanings, and associations continuously emerge, dissolve, and recombine.

Situated between bioart, perceptual aesthetics, ecological thought, and speculative image-making, the investigation proposes that observation is not merely a means of recording reality but a process through which ecological relationships become perceptible. By exploring decomposition as a condition of ecological becoming, the project investigates how light, focus, and perception enable such processes to appear, disappear, and re-emerge within human experience.

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